Sexta ela não foi, domingo ela não vai

Há momentos em que não se posicionar é tomar uma posição, assim estive até então. Enquanto o debate político for pautado pela discussão de projetos de governo, não de nação, não se manifestar é um chamado à reflexão.

Parece que todas as nossas aspirações ficaram limitadas a esse ou aquele projeto de governo. O Estado aqui veio de fora, do outro lado do Atlântico, e sempre pareceu algo exterior a nós. Nos acostumamos com a noção de um Estado que dita normas, implementa mudanças, um Estado que tutela.

Não se posicionar em um momento como esse, onde discute-se qual força política nos trará avanços ou retrocessos, é não respaldar a noção de que as soluções virão de fora, serão implementadas, pelo Exército, por um governo específico, pelo político tal. Polarizar o debate dessa forma é ignorar que enquanto sociedade somos muito maiores que o Estado, maiores que um governo, um partido.

Esse apelo anacrônico por intervenção militar, no fundo, é uma busca por tutela. Pelo desejo de serem tutelados, delegam ao Exército “que faça alguma coisa”. Para Kant, seria um caso típico de menoridade, quando o indivíduo abre mão da sua autonomia, do uso de seu próprio entendimento, para delegar a outro, seja um indivíduo ou uma instituição.

“É tão cômodo ser menor” disse o filósofo alemão, não precisamos pensar em um projeto de país que esteja além de qualquer projeto de governo, no que virá depois, em como fortalecer ainda mais as instituições democráticas, basta uma intervenção militar e pronto, eles nos dirão como deve ser feito.

É importante que após Junho de 2013 as pessoas que não tiveram voz naqueles protestos queiram ir às ruas agora, levantar suas bandeiras, sejam quais forem, é saudável até, politiza, traz a política para o espaço público, uma pena que as bandeiras escolhidas sejam o Impeachment e a Intervenção Militar, uma quebra desnecessária da institucionalidade no primeiro caso, que trará mais prejuízos que ganhos; uma vontade de ser tutelado no segundo, que levará o país para um caminho indeterminado. Acredito que esse pessoal pode contribuir com bandeiras mais propositivas, basta uma reflexão mais crítica contra aqueles que se colocam como “lideranças”, isso vale para os protestos de ontem também.

A ausência de lideranças e a forma horizontal como foram organizados os protestos de 2013, até antes disso, na minha opinião, tem muito a ensinar às mobilizações de ontem e de amanhã.

Essa busca por tutela também é comum a quem encara um partido como finalidade de vida, chegando a afirmar “eu sou o partido tal” e isso o define enquanto sujeito, se abstendo de qualquer crítica ou discurso destoante, ou ainda para aqueles que buscam a todo custo manter um projeto de governo, sem perseguir um projeto de país, de nação.

De modo que desejo a todos que irão pra rua amanhã, assim como aos que foram ontem, apenas uma coisa: esclarecimento

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