Marina e Dilma: entre Rousseau e Maquiavel

Antes de mais nada quero frisar que ainda não tenho nenhuma posição em relação a essas eleições. E que acima de tudo sou um crítico do anti-petismo de argumentos preguiçosos tão comum hoje em dia.

Pois bem, dito isso, gostaria de comentar certas análises acerca do crescimento de Marina Silva nas pesquisas, e a incapacidade do PT em reconhecer erros evidentes, replicando-os em suas críticas à candidata. Um discurso comum entre os petistas é a de que o governo formou e instruiu milhões de jovens através do ensino superior, e que esses agora influenciados por um discurso que nega a política, tal como eles a entendem, votam em Marina. Ingratos que são.

É fato que alguma coisa aconteceu no ano passado, em meados de junho, que envolveu principalmente jovens, e isso repercutiu diretamente nessas eleições. Mas o que aconteceu não foi apenas uma explosão colérica, fugaz e vazia como costumam pintar certos petistas. Foi a manifestação de um descontentamento com a política institucional que vinha sendo alimentado há anos.  E isso sim está diretamente ligado a forma como o PT vem gerindo suas alianças em nome de uma suposta “governabilidade”.

Quando os petistas argumentam que a “Nova Política” de Marina Silva é antes de tudo uma anti-política esquecem que Dilma foi eleita em 2010 exatamente por ter um perfil técnico, por ser mais gestora do que política, o que se mostrou verdadeiro ao longo de seu governo. As manifestações de junho tornaram evidentes as demandas por uma nova forma de se fazer política, dando o apoio popular necessário para que o PT se distanciasse de setores conservadores com os quais se aliou. Mas foi uma oportunidade perdida, ao invés de se afastar do “peemedebismo” o governo através do Ministro José Eduardo Cardozo adotou um tom de criminalização dos protestos e ensaiou uma reforma política que durou poucas semanas.

“É o que Maquiavel fez ver com evidência. Fingindo dar lições aos reis, deu-as, e grandes, aos povos.” Comentou certa vez Rousseau mostrando que o valor de Maquiavel consiste não em uma cartilha para o Príncipe manter a governabilidade, mas em um receituário republicano para que a vontade geral não se perca na busca estéril do poder pelo poder.

Se Marina cresceu e ainda cresce é sobretudo devido a própria letargia do PT em se reinventar, se oxigenar, a dar vasão a essas demandas, em ficar preso a uma ideologia focada unicamente na gestão, transformando a política em mera busca por índices econômicos satisfatórios. A política não pode se resumir a uma questão burocrática, a busca por governabilidade, a mera gestão, ela precisa motivar, encantar. Marina pode ter atendido a tal demanda exagerando demais no antídoto, com demasiado encanto e idealismo, até ingenuidade, exagerando na dose rousseauniana, mas ainda assim as encarnou. E democracia representativa é isso, ganha aquele que mais representa as demandas da população.

E essas eleições estão muito mais para Rousseau do que para Maquiavel.

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