Dois amigos no rolezinho

Na praça de alimentação de um Shopping, em um centro urbano, dois amigos bebem enquanto conversam:

-Que correria é essa? Acho que está tendo algum tumulto lá fora.

-É o tal do rolezinho, não estava sabendo? Marcaram um para hoje.

-Por que me chamou para cá então?

-Moro a duas quadras daqui, gosto desse choop, conheço o garçom, venho aqui todo final de semana, jamais me privaria disso por um evento desse tipo. Isso não me assusta.

-Não lhe incomoda?

-Não, ao menos enquanto eu puder tomar meu choop. No mais, eles têm tanto direito de estarem aqui quanto eu.

-Você não veio com 647 amigos.

-Será que são todos amigos? Duvido muito. Acho que eles querem trazer a periferia para cá, deixar isso aqui com a cara deles.

-Essas pessoas estão apenas reforçando o estereótipo de que pessoas da periferia são fúteis, bregas, possuem gosto musical duvidoso e veneram demasiadamente uma padrão de vida consumista e ostentador. Há uma intencionalidade de pessoas conservadoras em apresentar o caso do seguinte modo: “vejam, está é a periferia”. Já as progressistas, ao defender eventos desse tipo, exaltam a periferia pelo que ela tem de mais fútil. Prestam, nesse sentido, um desserviço às comunidades periféricas.

-De fato, mas eu vejo por outro ângulo. Esse caso me faz lembrar das aulas de antropologia, de como a demarcação de territórios é importante na sociedade dos primatas; para isso, a agressividade e o tumulto são fundamentais. Gritos, gestos bruscos, barulho, formar bandos, são sinais universais para demarcar um território, reivindicá-lo, toma-lo para si.  Me parece que é isso que se passa por aqui. Cachorros, por exemplo, delimitam seu espaço com urina, galos cantando, insetos exalando feromônios. Os humanos e primatas em geral, na impossibilidade de emitir sinais químicos ou vocalizar com eficiência, precisam apresentar uma série de gestos e sinais complexos para sua comunicação se tornar mais eficiente. Esse ritual de demarcar território é parte disso. Eles sentiram que essa parte da selva urbana lhes pertencem por direito, estão mostrando que chegaram, que existem, demarcando território.

-Não tenho essa sua veia antropológica, encaro o homem como uma produção cultural muito mais do que biológica. Não acho que eles queiram delimitar seu território. Acho que querem aparecer mesmo, estar em evidência, sua vaidade é alimentada pela mídia. Para alguns setores da sociedade interessa evidenciar esse lado da periferia. Falo porque venho da periferia, lá me criei, convivi com esses tipos, lá eles não são maioria, não representam o lugar de onde vieram. Lá eles levariam uma coça, a começar em casa. Há um senso de civilidade muito forte na periferia, qualquer Mãe ensina desde cedo seu filho a se comportar em público. Não para ele saber onde é seu lugar, como querem alguns discursos, mas para ele saber se portar, para dá-lo dignidade, para ser gente, na linguagem de lá. Aqui, provavelmente, você encontrará algum parente ou conhecido deles, que moram na mesma localidade, mas você não os notará, porque eles sabem frequentar esse espaço; essas pessoas, embora venham da mesma realidade, pertencem a esse espaço muito mais do que esses tipos, não precisam fazer essa algazarra para demarcar esse espaço como delas, como você diz, elas se integram a ele, ao fazerem isso tornam esse lugar, de fato, delas. De modo muito mais eficiente do que através desse ritual primata que você citou.

-Não acredito que elas queiram se integrar a esse espaço, acho que querem transpor a realidade delas para cá. Você pode argumentar que elas não representam a periferia, podem ser minoria lá, mas é o jeito delas, é a forma como são. Acredito que esse espaço causa nelas certo estranhamento, mesmo assim querem frequenta-lo por ser um dos únicos lugares seguros hoje em dia, por isso vêm em bandos, tentam tornar isso aqui outra coisa, por isso trazem sua galera, sua música, seu modo de ser.

-Mas não é por isso que precisamos todos nos tornar como elas são

-Concordo, por isso tomo o meu choop aqui enquanto elas fazem a sua zoeira lá.

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