O pinta: cidadão natalense

O problema da expulsão dos pintas do Midway Mall é apenas um sintoma de um problema ainda maior: temos vergonha de nos assumir como uma cidade de pintas; Natal, a cidade da aparência, tem vergonha da aparência de seu cidadão mais típico.

Pode-se argumentar, até com certa razão, que os individuos rotulados como pinta estavam se enfrentando dentro do Shopping e prejudicando o direito dos que lá estavam de aproveitar o seu lazer familiar dominicial. Não entraremos no mérito da questão, o objetivo aqui é ir além do ocorrido, a intenção é refletir sobre o que é isso: ser pinta.

O termo pinta ainda carece de um estudo etimológico, na ausência deste, podemos explorar algumas possibilidades. Talvez, o termo tenha surgido para designar aqueles que tem estilo, ou seja, que tem pinta – no sentido de “boa pinta”, charmoso. Entretanto, o mais provável é que o termo tivesse inicialmente caráter pejorativo, podendo designar aqueles que ao se vestirem com determinadas marcas passam a ter apenas a pinta – a pose, a aparência – de estarem “bem arrumados” quando na verdade não estão. Ou quem sabe, o termo tenha surgido para designar aquele que tem pinta – ou seja, jeito – de malandro, maloqueiro, devido ao andar, vestimentas e tudo mais. Fato é que o termo permite muitas possibilidades, quantas a imaginação puder inventar, poderíamos ocupar todo o texto com elas. O dicionário Aurélio, por exemplo, possui quatro definições para “pinta”, nenhuma delas se encaixa nos casos acima.

O pinta é o único personagem tipicamente natalense. Sua vestimenta comumente identificável – bermuda de praia, camiseta folgada, boné – é perfeitamente adaptada ao clima de uma cidade quente e praieira. A cidade migrou em direção a Parnamirim, longe do mar, transformando dunas em conjuntos habitacionais. Dentro dos conjuntos habitacionais e das casas muradas nos bairros nobres, criou-se uma geração sem contato com a rua, consequentemente, sem uma identidade natalense. Identidade esta que não foi perdida, se preserva na Natal antiga, que margeia o Potengi, no outro lado da ponte, nas praias que não figuram nos cartões postais, além daqueles que vivenciaram a cidade para além de seu bairro ou condomínio.

O pinta é essencialmente um antiplayboy. Arrisco-me a dizer que o pinta é uma invenção playboyniana para caracterizar tudo aquilo que ele renega e odeia. Não era raro encontrar, no final da década de 90 e início do nosso século, playboys que iam para o Vila Folia, ou qualquer outro local da moda, apenas para “quebrar os pinta”.

Ser pinta é um conceito mutável, já que está em construção. Na minha adolescência, pinta era também o alternativo. O “boy” com bermuda da Cyclone era tão pinta quanto o de camisa de banda. De modo que o adjetivo “pinta” era utilizado para descrever pejorativamente os que não seguiam o padrão, que não possuiam o estilo pasteurizado e padronizado da típica classe média natalense. A criação de uma famoso perfil no Twitter (@pintanatalense) contribuiu para que o termo fosse visto de modo menos pejorativo, contribuindo para a formação de um certo “orgulho pinta” e a consolidação do personagem com os esteriótipos já fixados na mente do natalense. Dando certa identidade ao pinta.

Pinta é aquele que vive a cidade, a conhece, portanto, não teme andar na rua, sua malícia é antes de tudo uma proteção; ele veste-se para a cidade, sua praia, seu clima, na cidade está em casa; sua identidade ainda está em construção, mas confunde-se visceralmente com uma identidade natalense – que também está sendo construida. Nossa identidade não está no telejornal, nos programas de TV, nos artistas, nos intelectuais, nos políticos, ou na internet. Nossa identidade está nas ruas. Nas ruas está o pinta natalense.

Por isso, o pinta é patrimônio cultural da cidade, todos aqueles que se “criaram” nas ruas de Natal, nos espaços públicos, nos “rolés”, independente de classe, tem um pouco de pinta dentro de si. São eles os legítimos cidadãos natalenses.

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