Bairro Neópolis: vida e morte de uma utopia

Margeada pela BR-101, quando a rodovia ainda era estreita e sem iluminação, estava a pacata Granja da Vassoura, uma área de 26 hectares distante nove quilômetros do centro de Natal; era denominada assim porque, em plena ditadura, resistia teimosamente uma vassoura com óculos, símbolo da campanha eleitoral de Jânio Quadros, último presidente democraticamente eleito até então.

A granja, pertencente aos irmãos Deodato e Telmo Barreto, foi vendida em 1968, para dar lugar ao primeiro empreendimento da INOCOOP no RN (Instituto de Orientação às Cooperativas Habitacionais) um sistema de cooperativas habitacionais presentes em diversos estados brasileiros. Ali seria erguida a “nova cidade”, neópolis em grego, nome decidido coletivamente em uma assembléia dos cooperados.

As políticas públicas de Estado e de governo em Natal segregaram espacialmente a cidade, assim o INOCOOP-RN construía seus conjuntos habitacionais na Zona Sul da cidade, financiados pela Caixa Econômica, destinados geralmente a funcionários públicos e assalariados que podiam comprovar uma renda fixa razoável. Já a COHAB-RN, na época, construiu os seus conjuntos habitacionais na Zona Norte da cidade, destinados, geralmente, a pessoas de baixa renda.Viaduto-de-Ponta-Negra-em-1975

A primeira etapa do conjunto foi entregue em 1970, contendo ao todo 760 casas. O conjunto tinha por pretensão ser o mais democrático de Natal, as casas não eram escolhidas na hora da compra, eram sorteadas. O primeiro sorteio foi realizado no próprio conjunto. Como a distância até o centro da cidade era grande, foram fretados ônibus para levar os futuros moradores ao local do sorteio. O único meio de se chegar ao bairro era o ônibus que fazia a linha para Parnamirim. Durante todo o dia, após o sorteio, houve uma grande festa. Um forma dos futuros moradores se socializarem e conhecerem seus futuros vizinhos.

O conjunto foi projetado para abrigar grandes áreas de uso comum, com uma grande praça central e vários espaços adjacentes, o que reforçava ainda mais seu caráter democrático, com amplos espaços de convivência. Os prédios de uso comum foram construídos pela própria comunidade, como o centro comunitário. Com o tempo, o centro foi adquirindo cada vez menos relevância, hoje em dia, com a exceção de algumas atividades e cursos, ele é inexpressivo, já as praças, ao invés de promover a convivência entre os moradores, tornaram-se terrenos baldios, tomados pelo mato e pelo descaso.

Dentre os conjuntos habitacionais que surgiram após o conjunto inicial, formando o que hoje chamamos de bairro Neópolis, encontram-se o conjunto Jiqui, construído em 1975, e o conjunto Pirangi, de 1980. Logo após vieram os conjuntos de pequenos apartamentos, como Jardim Botânico, entregue inicialmente em 1982. Além de Parque dos Rios e Serrambi IV em 1985.

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Nos novos conjuntos, as casas deram lugar aos apartamentos, eram modestos para a época, enormes hoje em dia com seus 82 m², divididos em blocos, três pavimentos cada, quatro apartamentos por andar. De conjunto passaram a ter só o nome, na prática, era cada bloco por si. No espaço onde as crianças brincavam, corriam, interagiam com as dos blocos vizinhos, ergueram-se muros. A sombra das árvores deu lugar a sombra das coberturas metálicas das garagens. Cada bloco tornou-se um gueto, alguns pomposos, revestidos de cerâmica, portões elétricos; outros, mal pintados, maltrapilhos, com portões enferrujados.

Muitos que por lá cresceram estudaram no Jardim Escola Tilim. A escola, que começou em uma casa no conjunto, passou para a avenida Ayrton Senna, virou Itaece Centro Educacional. Lá estudavam boa parte das crianças do bairro, o que em certa medida conferia um senso de identidade entre elas.

Algumas crianças ganhavam as ruas do bairro, desciam com seus carrinhos de rolemã a ladeira da – extinta fábrica – Alpargatas. Jogavam bola nos campinhos de terra, na quadra da praça, ou na rua, entre o intervalo dos carros. As que eram criadas mais “soltas” iam até a lagoa do Jiqui, atravessavam a BR, subiam as dunas, jogavam nos campinhos, viviam o bairro. No conjunto de casas, cada rua tinha seu bando, no de apartamentos, o bando era divido pelos blocos.

A igreja do bairro, antes da espetacularização da “missa da cura”, era um ponto de encontro dominical para algumas famílias. No entanto, para muitos, o espaço no entorno da igreja era frequentado principalmente na festa da padroeira. Tradição que ainda se conserva no interior, a festa da padroeira do bairro atraia barracas, fliperamas, brincadeiras e jogos diversos. Diversão garantida para as crianças, paquera certa para os adolescentes.

A áurea de bairro familiar, gritos de crianças, visitas dos vizinhos, muros baixos, árvores no quintal, vendinhas de esquina, escolinha do bairro, durou o tempo necessário para formar uma geração.

A cidade alcançou Neópolis, com a ampliação do acesso viário, com os shoppings, supermercados. De periferia para centro. O progresso, implacável, ergueu edíficios, lojas, tornou velha a cidade nova. Pela avenida Ayrton Senna surgem novas cidades, novas neópolis, muradas, verticais, desumanas.

Em algumas casas, no velho conjunto, senhorinhas aguam suas plantas, incólumes à mudança, envoltas em sua casa, sua família, suas amigas de longa data, seu bairro. Para elas, a cidade ainda é nova, o bairro ainda é seu. Para elas, Neópolis ainda não morreu…

16 comentários sobre “Bairro Neópolis: vida e morte de uma utopia

  1. moro na av dos pinheirais, na minha infância jogava bola em frente de casa, hoje se der bobeira é atropelado, por causa do fluxo de carro que aumentou muito. saudades do tempo que a galera do surf de neópolis fazia campeonatos em ponta negra, isso na década de 80 e 90 havia as festas juninas nas rua de neópolis e terminava com a festa da quadra. muito legal foi recordar a neópolis que guardo na minha memória.

  2. Qdo cheguei em Neopolis em 1989 ainda vivi esses tempos maravilhosos q depois de 12hs era a hora de relaxar até os militares q lá habitavam todos os moradores se conheciam muros baixos tempos q se viviam c tranquila fades
    Mesmo assim apesar de tudo q estamos passando com novas mudanças q obrigatoriamente temos q aceitar a qualidade de vida.mesmo assim amo neopolis ❤️❤️❤️❤️❤️

  3. Gostei muito da sua crônica. Também moro no bairro de Neópolis, mudei-me recentemente. Percebo justamente isso que você muito bem descreveu. Estou escrevendo uma crônica, ainda está no prelo, sobre ease nosso espaço. Depois repasso se lhe interessar.

  4. Show, q saudades desse tempo onde podíamos ficar a vontade p brincar , nos divertir, ruas de Barro , pique esconde , bicicletas,futebol, varias brincadeiras , veio um filme aqui comigo, é , o tempo voa e população aumenta, e os problemas surgem, q Deus nos guarde de todo mal, e q NEÓPOLIS continue alegre como sempre foi.

  5. Bom texto. Parabéns. Moro no bairro desde 1978, não no conjunto, mas na área denominada de Neópolis. Primeiro, no conjunto Pirangi, depois Serrambi I, hoje no Monte Belo, localidades que floresceram a partir do conjunto. Seu texto retrata bem o que existia e como hoje a urbanização se verticalizou em prédios, mas nós tornou horizontalmente distantes, perdendo a amizade da vizinhança.

  6. Cheguei aqui em 1985 no conjunto Pirangi e acompanhei toda essa evolução do bairro. Amo morar aqui, não troco esse bairro por nem um outro. Adorei a reportagem ela me trouxe muitas lembranças boas da minha adadoslecencia.

  7. Cheguei em Neópolis em 1975, morava na ultima avenida que ficava de frente a uma duna e um riozinho que separava neópolis do Jiqui. Aquela estrada do Jiqui era famosa pelos buracos e lama, sem nenhum paralelepípedo. As dunas eram maravilhosas e a areia invadia a rua por causa do vento. Grandes campeonatos de vôlei na quadra principal… saudades

  8. Muito bom lembrar esse tempo Túlio moro no conjunto Pirangi desde 1980 fomos os primeiros a chegar a 37 anos atrás uma vida né parabéns pelo texto

  9. Fui morar em Neópolis em 1971, tinha 5 anos de idade e vivi todo o crescimento do conjunto habitacional que virou bairro. Morava na rua “dois” (Aquidauana), chamávamos as ruas por número. Tive uma infância muito feliz, brincando na rua, nas pracinhas, colhendo frutos nas matas que rodeavam Neópolis. Tempos em que a meninada toda se juntava numa rua para as partidas de queimadas e para as festas juninas. Tempos em que a vizinhança sentava na calçada e organizava as festas coletivas. Tempos de escorregar de tábua de morro nas dunas que circundavam o conjunto e tomar banho nas “sete” lagoas.

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