Filosofia da Proximidade

Objetiva-se o presente artigo a comprovar que qualquer Zé ruela como eu pode se dar ao luxo de ostentar sua soberba em uma pompa pretensamente acadêmica, e com isso acreditar piamente estar contribuindo para algo grandioso, realizar grandes feitos é a forma que pessoas mediocres encontram para atenuar sua pequeneza, construir grandes tumbas ou monolitos de pedra é assaz trabalhoso, para alguns restam apenas os papiros, trapinhos de gente. Romance de deuses não garantem a fama, surge então um monstrinho pretensioso que nos conta da busca à uma unidade originária ou nega a realidade aparente, recorre a qualquer “não sei o quê” invisível, se diz agora filósofo. Chupa essa sacerdote. Viram quanta astúcia? Quéops revira-se no túmulo. Escribas corcundas, franzinos, desajeitados, agora são grandes. Eu queria aqui escrever sobre a vaidade, mas alguns a chamam filosofia.

Mas voltemos ao nosso textinho e seu título vazio: filosofia da proximidade, sim, você não leu errado, isto é filosofia “e pra aquele que provar que eu tô mentindo, eu tiro o meu chapéu” (SEIXAS, Raul. 1976. Faixa 11) pois bem, nos aproveitaremos aqui da aparente boa que ainda resta da filosofia, antes que a difamem por completo, e no mais, este termo dará a nossa investigação um tom mais sério do que de fato possui. Confesso-lhes também que me atrai o falso tom de novidade a qual soberbamente pretendo dar ao cunhar tal termo.

O ideal seria que aqui, e nas linhas que se seguem, vos entediassem com uma vasta fundamentação, seguida de uma pequena explicação – sempre nessa ordem – daquilo que pretendo exprimir ao empregar o termo proximidade. Mas que diabos! Proximidade é tão somente aqui, proximidade! Certamente acharão definições divergentes em dicionários, com as mais diversas origens semânticas, poderão apelar ainda ao conceito de proximidade de algum filósofo de nome impronunciável, berrarão aos quatros ventos o quanto foi precipitada a utilização do termo de modo tão vago e confuso, tentarão mostrar o quanto fui ingênuo e equivocado, para ai sim, afirmarem a sua grande erudição, mostrar o quanto são sábios e perspicazes perante a pequeneza do meu ser. Pois bem, repito: vaidade, vaidade, vaidade.

O que digo aqui com proximidade está aqui mesmo no texto, ora senhores caçadores de contradições, irão contradizer-se ao achar a proximidade que construo longe da proximidade daquilo que falo? Enquanto tiver este argumento no bolso, alçarei voos despreocupados de estruturas axiomáticas.

E como produzir filosofia parece-nos um confessar algo que não se sabe a um leitor que sabe menos ainda, chega a hora de confessar-lhes que sei tanto quanto vocês o que virá nas linhas subsequentes, de modo que desconheço completamente o que quero dizer aqui com proximidade, que dirá filosofia da proximidade.

O que posso afirmar-lhes, caros leitores, são os motivos que me fizeram cunhar este termo; em alguns poucos anos de vida acadêmica, debrucei-me sobre um tema ao qual jamais consegui solucionar. Trata-se da distância, especificamente a distância proporcionada pela arte, distância esta como delimitadora entre a perspectiva do conhecimento e a perspectiva da arte, para tanto utilizei o termo, distância estética – que admito, nem meu era.

Ora que faço eu todo este tempo falando da distância? Sou demasiado próximo das coisas, eu realmente as almejo, porque então o teatrinho do distanciar-se?

Aqui tentarei ser aquilo o que realmente sou, longe da artificialidade da pesquisa e da fundamentação acadêmica. Por isso talvez filosofia da proximidade, ou seja, o pensamento que está próximo demais de seu autor para querer tornar-se universal.

E como, creio, pertenço à mesma classe de indivíduos que vocês: próximo demais de nós (simples mortais tupiniquins), a ponto de declarar-me universal para uma abastada minoria. O que é a pretensa universalidade da filosofia, senão a universalidade do homem branco, culto, ocidental/europeu? É essa a universalidade que quero? Não! Sou muito mais exclusivista e vaidoso que isso, eu quero a minha universalidade e quero que ela seja minha, “cada macaco no seu galho” já dizia o profeta. Eis a solução para o paradigma entre o universal e o particular: não há paradigma! Eureka!

Todo pensador a cada busca por uma universalidade, nega aquilo que lhe é próprio, sendo que aquilo que lhe é próprio é exatamente o que o liga a todos os outros. Assim, ao tentar postular algo universal, acaba por proferir um enunciado por demais distante da realidade na qual se insere, passa então a habitar outro mundo, cria belos e ornamentados sistemas conceituais para justificar este mundo imaginário.

Também o vosso autor, ao adequar-se a certas normas sintáticas para fazer-se entender, acaba por também enquadrar a proximidade de seu pensamento em regras linguísticas (portanto universais), fazendo com que este texto, que se enuncia filosofia da proximidade, esteja em certo grau afastado da proximidade pretendida ao liquefazer-se em palavras e conceitos. Mas talvez tudo isso seja válido apenas como uma mitologia, “isso é historinha pra boi dormir, menino” (VOVÓ, 1989, prefácio ao carão) assim como tudo aquilo a que chamamos filosofia, como já diria Derrida.

Assim como a mitologia era para os gregos, é para nós isto a que se chama filosofia: seu valor é justificado como um importante elemento de nossa Paidéia, uma Ode à cultura e à sabedoria, algo a ser respeitado e temido, assim, toda filosofia talvez se justifique apenas como formação [Bildung][1]. E isto não é pouca coisa (aliás, é fundamental), já vale, por exemplo, o tempo que despendi para prolongar o texto até aqui.

Uma vez dito isso, e enchido bastante linguiça, abusando assim de vossa generosa paciência, caro leitor, limito aqui o sentido das palavras proferidas, apenas ao sentido em que aqui está, entre uma e outra linha haverá tão somente um espaço em branco, com o perdão do termo filosofia da proximidade que não me canso em repetir, sem continuar dando-lhes a devida explicação – lembrem-se essa é a longa e entediante parte da fundamentação.

Em certa medida as coisas e pessoas que estão próximas de nós, são aquelas que escolhemos dentre outras para nos acompanhar, em grande parte por elas provocarem em nós alguma espécie de afinidade. Ora, por quê não haveria de acontecer o mesmo com o pensamento, com a busca do saber? Por que não utilizar a filosofia naquilo que realmente nos afeta?  Por que sacrificar nossas impressões, intuições, opiniões em detrimento da busca de um postulado universal?  Para quê essa distância?

Um pensamento engajado em solucionar, ou questionar, aquilo com o qual tenho afinidade. Mergulhando em minha própria subjetividade, sendo sincero com o que realmente me afeta. Não poderia eu falar com mais sinceridade e veracidade, se falasse sobre tudo aquilo que de alguma forma me diz respeito? Pensar em tudo aquilo que realmente sinto? Não apenas ser honesto com uma tradição filosófica que me precedeu, mas ser integralmente honesto comigo mesmo. Filosofia como meio de vida, como modo de ser, não como uma homérica busca a uma verdade universal que não existe. Seria isso talvez o que chamo aqui de filosofia da proximidade. Mas, agora que defini do que se trata o texto, abandou-me toda a vontade que tinha em continua-lo. Quem mandou defini-lo?


[1] Citar em Alemão sempre dá uma moral né não?

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