#ForaMicarla: a militância ressentida

“Essa inversão do olhar que estabelece valores – este necessário dirigir-se para fora, em vez de voltar-se para si – é algo próprio do ressentimento” (Friedrich Nietzsche).

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche em sua obra A Genealogia da Moral, ao tratar da questão da moral do ressentimento, considera que a manifestação do ressentimento nos valores da civilização ocidental, com o advento do platonismo e do cristianismo, seria uma das principais evidências da sua decadência criativa.

Com o perdão do anacronismo e da simplificação da comparação, podemos afirmar o mesmo para o movimento #Foramicarla, na medida em que este foi se fechando, o ressentimento começou a se institucionalizar – e principalmente a se personalizar. Agora havia uma delimitação mais ou menos clara entre os que pertenciam ou não ao movimento. O palco estava armado para que as vaidades tão comuns na política ecoassem em alguns de seus participantes.

Essa institucionalização afastou muitos dos que contribuíam criativamente para o movimento, com banners, vídeos, denúncias, matérias, textos, fotos, charges, sátiras, enfim toda uma constelação de criações que o enriqueciam. E assim, a decadência criativa que de acordo com Nietzsche teria afligido a civilização ocidental, passou a vitimar também o movimento. Atrevo-me aqui, a também, culpar o ressentimento por essa decadência.

Quando falo “militância ressentida” quero designar as pessoas que de fato “militaram” no movimento, e que justamente por isso sentiram a necessidade de afirmar sua importância dentro dele – até aqui tudo bem, são apenas militantes constatando sua contribuição. Quando acrescento “ressentida” quero delimitar àqueles dentre esses militantes, que passaram a atacar ou a satirizar, os que julgavam não participar do movimento.

Isso obviamente não vale para todos, há uma parcela significativa dos integrantes que não se encaixarão no perfil traçado aqui, mas a parcela que se encaixa é mais exposta nas mídias do que as demais, aumentando seu potencial. Não é meu objetivo fazer uma caricatura pejorativa dos integrantes do movimento. Ao contrário, muitos deles possuem um grau de conscientização e maturidade política que fariam inveja a muitos aspirantes – ou detentores – de cargos públicos. Logo, esta é uma classificação pessoal, aqueles que se enquadram nesse perfil se reconhecerão aqui, não estarei, portanto, delimitando de “militantes ressentidos” as pessoas A ou B, apenas estarei expondo uma tendência psicológica de alguns integrantes, que apenas pode ser identificada pela avaliação da própria pessoa.

A intenção aqui é de contribuir para superar os erros, e assim fortalecer o movimento tornando-o mais forte, maduro, consistente, devolvendo-lhe o respaldo da população, para tanto se faz necessário repensar as estratégias adotadas até agora, que a meu ver, não foram tão exitosas após o acampamento. Para tanto publiquei aqui na Carta Potiguar o texto #ForaMicarla: Aprendendo com os erros, onde tento fazer um balanço do movimento como um todo.

Nesse texto a ótica serão os indivíduos que o compõem, e como os conflitos de ego, e a psicologia por detrás de suas ações, contribuíram em certo modo para fragmentá-lo, afastando-o cada vez mais da população. E quando digo população refiro-me ao natalense médio, desvinculado totalmente da militância política, e muitas vezes da política em si praticada no nosso estado.

O problema começou na medida em que alguns passaram a se ater mais aos outros e na ameaça que eles podiam representar, do que neles mesmos, e na forma como eles podiam melhorar. Agir de acordo com seus princípios e fazer o que se julga necessário deveria bastar. O problema é quando se estabelece que eu sou “bom”, porque ele é “mal”. Ou seja, quando se faz necessário afirmar sua importância dentro de um movimento, porque o outro é ausente, acomodado, ou adversário político; ou ainda quando se julga certos atos incorretos ou improdutivos, e ao invés de se mostrar o quanto estão errados através de atos acertados, tentam cooptar e coagir os outros a aceitar a sua forma de atuação política. Passemos aos exemplos:

Na ocupação da câmara, certa vez, me voluntariei para fotografar elementos tidos como “suspeitos”, vez ou outra subia uma pessoa e me pedia para fotografar esse ou aquele “playboy”, me perguntei então se não seria esse o critério de “suspeito”: pessoas que detinham um estilo denominado pejorativamente por eles de “playboy” e que apenas por isso poderiam estar sabotando o movimento – puro preconceito. Olhei para minhas roupas e perguntei-me então se não seria eu um suspeito que fotografava suspeitos, e apesar dessa ironia prossegui fotografando. Isso é um exemplo do quanto à preocupação em fiscalizar e julgar o outro pode dominar e enfraquecer os ânimos e o potencial de um movimento, ao fragmentá-lo em classes sociais, ou preferências estilísticas (?).

Nesse contexto aprendi também um novo adjetivo: “pelego”, segundo o Aurélio significa: “a pele do carneiro com a lã”, então deve ser algo como “lobo em pele de cordeiro?” A próxima explicação o define melhor: “Designação comum aos agentes mais ou menos disfarçados do Ministério do Trabalho nos sindicatos operários”, ou seja, pessoas que estariam infiltradas no movimento para enfraquecê-lo, não que isso não fosse possível, mas não da forma como pregavam ou acreditavam. Às vezes, ouvia tal adjetivo atrelado ao pessoal do “Pó”? Hã? Tão cheirando aqui? – me perguntei. Mais tarde, descobri tratar-se de uma divergência entre o pessoal do PT e do POR (Partido Operário Revolucionário), estes últimos teriam sido ao que me pareceu “amistosamente” convidados a não participar.

Outra vez ainda fui acusado de “só querer dar uma de acampado” ou ainda de “ser só mais um crítico vazio”, ora, por detrás desse discurso há embutido outro, o de “eu sou melhor do que você, e você não tem o direito de falar nada, porque você não contribuiu como eu” – pura vaidade.

A presença em atos públicos e acampamentos não deveriam ser uma obrigação, nem tampouco um pré-requisito necessário para alguém poder opinar, sugestionar, contribuir, ao menos deveria ser assim em um movimento plural, auto-gestionado, etc, etc, etc, – eu só acrescentaria ainda: “transparente”, com discussões, decisões e plenárias devidamente transmitidas abertas e registradas, pois a pluralidade só se manifesta quando de fato se busca por ela, isso inclui possibilitar que ela aconteça. Possibilitar os meios para isso.

Aceitar a pluralidade significa aceitar pessoas que pensam de outra forma, aceitar opiniões contraditórias, isso inclui também possibilitar meios para que essas pessoas tenham sua voz dentro do movimento, e que sua opinião possa ser determinante nas ações tomadas. Isso inclui além daquelas pessoas que consideram atos de rua fundamentais para fazer pressão política, também aquelas que acreditam em outras formas igualmente eficientes para essa mesma finalidade.

Talvez uma das maiores vitórias da sociedade civil nos últimos anos tenha sido a lei da ficha limpa, que não precisou de nenhum ato de rua, se concretizou com a pressão oriunda da internet, do Twitter, do Facebook e da importante participação da Avaaz.org, com isso vários políticos acabaram aderindo ao projeto e o viabilizando. É um exemplo de como um projeto que vise agregar forças, sejam elas quais forem, pode originar em um resultado prático e expressivo em um curto período de tempo. Se todos os meios de se pressionar politicamente coexistirem em sincronia e harmonia, sem espaço para ressentimentos, teremos então uma força muito maior, tanto em termos de mobilização, quando em atuação política.

Além do mais tem que se entender que nem todos querem ser mártires, revolucionários, rebeldes, heróis, muitos apenas querem contribuir da forma que podem para se construir uma cidade melhor, estes não deveriam ser coagidos, nem carregar a culpa dos fracassos que ocorreram.

Aos que participaram ativamente das ações tomadas pelo movimento, devem-se a glória dos acertos e a culpa dos fracassos. Entretanto, alguns ao invés de alimentar o orgulho de estar fazendo as coisas acontecerem, de estarem na vanguarda desse processo, insistem em nutrir o ressentimento pelos que não participaram, atribuindo a eles e a seu “comodismo” muitos dos fracassos do movimento.

Se os atos estão vazios ao invés de se ressentir dos que não vieram, deveriam se indagar: “porque não vieram?” Ora, não vieram porque não acreditaram na eficácia do ato, aos que acreditaram e compareceram, cabem mostrar através de resultados aos que não foram porque eles deveriam ter ido, e a esses que foram cabem à glória de terem primeiramente acreditado nisso, servindo assim de exemplo para os outros, a meu ver, não há melhor forma de convocação do que essa.

Há pessoas que militam por vocação ou profissão: participam de entidades estudantis, movimentos sociais, partidos políticos, sindicatos, associações. Militar é sua razão de ser, mérito para elas, mas simplesmente existem pessoas que não são assim, que nunca seguraram uma faixa ou participaram ativamente do jogo político, ou seja, que possuem outra razão de ser e sentem-se realizadas de outra forma que não seja na atuação política, e que mesmo assim por consciência social, querem apenas contribuir, fazer sua parte para mudar as coisas da forma que lhe convém, ou que julgam necessário, sem que esta seja a sua principal meta de vida. E isso deveria ser respeitado. Não são contribuições “menores”, ou menos dignas de mérito por isso.

Como se soldados em época de guerra, ao invés de lutar corajosamente no campo de batalha, se ocupassem em rotular de desinteressados em defender a pátria, ou de covardes, todos aqueles que não sabem manusear um fuzil; ou que não possuem um condicionamento físico para lutar; ou ainda que sentem que sua contribuição seria maior de outra forma que não no campo de batalha. Ora, essas não são – ou não deveriam ser – as preocupações de um soldado.

Em época de guerra alguns estão na linha de frente, outros estão providenciando mantimentos, fabricando armas, traçando estratégias, monitorando o inimigo, todos têm sua importância, e quanto mais agirem em comunhão e cumplicidade entre si, mais chances têm de vencer.

Um dia não é suficiente. Para mudar é preciso participar, discutir, fiscalizar, e isso é um ato constante que transcende a espacialidade de um encontro físico, em um determinado período de tempo.

Somos um feudo disputado por oligarquias, e a muito se sabe disso sem nenhuma reação, e por isso até hoje estamos pagando o preço dessa falta de delimitação entre cargos públicos e interesses familiares. O primeiro, e talvez o principal passo já foi dado, foi rompida a letargia, a potência contestatória foi liberada e precisa ser alimentada com inteligência, respeito e responsabilidade: se há ressentimentos não há pluralidade, há apenas um discurso conveniente de arrebanhamento.

Não serão atos pontuais que mudarão alguma coisa, por mais grandioso que eles sejam – e nem estão sendo. Faz-se necessário a participação, fiscalização e discussão de propostas entre os que foram e os que ficaram em casa, em um processo continuado e unificado de luta, que abranja muito mais do que um encontro físico em um local e tempo determinados, mas que esteja presente na alma de cada natalense a cada momento.

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